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"Onde tudo se vende, tudo se troca, tudo se compra..."

 

Terça-feira, Janeiro 24, 2006

 
Xangô Rezado Alto

Em 1912, Maceió foi palco de um espetáculo sórdido, sombrio e desumano.
Euclides Malta exercia o poder a 12 anos, o que incomodava a algumas ¿figuras ilustres¿ da época. Acreditava-se que a oligarquia entre a família Malta e os terreiros de Candomblé era o que os mantinham no poder de mando. Os Malta assim seriam ¿protegidos dos Orixás¿.
A ganância e a sede de poder foram motivos suficientes para a depredação das dezenas de terreiros de Candomblé da cidade de Maceió. O pouco conhecido ¿Quebra¿.
Dia 2 de fevereiro de 2006, quando 94 anos depois da morte de Tia Marcelina, que morreu decorrente desse episódio chamando por xangô (orixá guerreiro), ¿o projeto Xangô Rezado Alto pretende ser uma manifestação e um resgate da cultura negra ainda tão marginalizada em Alagoas. Ele pretende ser um marco sobre o rompimento do silêncio e da violência que de resto se abate e sempre se abateu sobre as culturas populares e que para além ou dentre a violência do extermínio, a ¿violência do esquecimento¿. (Edson Bezerra ¿ Autor do Manifesto Sururu e do projeto Xangô Rezado Alto)
Por conseqüência do ¿Quebra¿, várias manifestações da cultura popular alagoana, associadas a prática do Candomblé, desapareceram. Porém ainda podemos ver uma silenciosa emergência destas manifestações, a exemplo do Afoxé Odó Iya no bairro da Ponta da terra, o Maracatu Axé Zumbí e a Orquestra de Tambores no bairro do Vergel do Lago.
O projeto Xangô Rezado Alto pretende romper barreiras e pela primeira vez unir filhos de santo, capoeiristas, bumba-meu-boi, outras manifestações afro-descendentes e principalmente a população que foi impedida de ter contato com essas artes por tanto tempo.

¿O Xangô Rezado Alto não pretende ser um projeto a ser realizado de fora pra dentro, mas, sobretudo de um projeto a ser vivenciado e situado no contexto de dar visibilidade e dizibilidade a emergência das culturas negras a partir da consciência da própria comunidade.¿ (Edson Bezerra)

Xangô Rezado Alto:

A primeira etapa (marco do Quebra) será a reunião de manifestações culturais até então periféricas. Se dividirá em 3 etapas: saída, caminhada, celebração.

Concentração: 17:00
Saída: Praça 13 de Maio
Chegada: Praça Sinimbú




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Sábado, Janeiro 07, 2006

 
"Mas então seu amor não é meu, nem eu o seu. Pois então que será meu amado, amador?"
...

Eu já tinha decidido não mais comentar sobre coisas que remetessem à minha vida pessoal nesse espaço que se diz um blog, mas... encontrei esse texto e ele fez meu coração bater acelerado... Peço perdão...!
...

Olhe aqui, olhos de azeviche
Vamos acertar as contas
porque é no dia de hoje
que cê vai embora daqui...
Mas antes, por obséquio:
Quer me devolver o equilíbrio?
Quer me dizer por que cê sumiu?
Quer me devolver o sono meu doril?
Quer se tocar e botar meu marcapasso pra consertar?
Quer me deixar na minha?
Quer tirar a mão de dentro da minha calcinha?
Olhe aqui, olhos de azeviche:
Quer parar de torcer pro meu fim
dentro do meu próprio estádio?
Quer parar de saxdoer no meu próprio rádio?
Vem cá, não vai sair assim...
Antes, quer ter a delicadeza de colar meu espelho?
Assim: agora fica de joelhos
e comece a cuspir todos os meus beijos.
Isso. Agora recolhe!
Engole a farta coreografia destas línguas
Varre com a língua esses anseios
Não haverá mais filho
pulsações e instintos animais.
Hoje eu me suicido ingerindo sete caixas de anticoncepcionais.
Trata-se de um despejo
Dedetize essa chateação que a gente chamou de desejo.
Pronto: última revista
Leve também essa bobagem que você chamou
de amor à primeira vista.
Olhos de azeviche, vem cá:
Apague esse gosto de pescoço da minha boca!
E leve esses presentes que você me deu:
essa cara de pau, essa textura de verniz.
Tire também esse sentimento de penetração
esse modo com que você me quis
esses ensaios de idas e voltas
essa esfregação
esse bob wilson erotizado que a gente chamou de tesão.
Pronto. Olhos de azeviche, pode partir!
Estou calma. Quero ficar sozinha
eu co'a minha alma. Agora pode ir.
Gente! Cadê minha alma que estava aqui?

Texto para uma separação - Elisa Lucinda

...



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Segunda-feira, Janeiro 02, 2006

 
"Sua taça nunca estará vazia, pois eu serei teu vinho."

Postei aqui parte de uma crônica muito interessante sobre o desperdício do amor. A forma com que as pessoas estão tornando esse sentimento vital em algo descartável, ¿dispensável por enquanto¿. É triste mais é real, descobri-me mais uma vez uma romântica filha da puta que insiste em acreditar que é simples e que nós é que complicamos tudo. Vi que tenho muito pra escutar e faço disso meu combustível. Ainda não me rendi, mas posso dizer com pureza d¿alma que amo e não quero deixar de ser esse ser esse ser de conflitos, julgamentos equivocados, prazeres solitários e caçador de olhos que me vejam. É por essas e outras que as palavras de Jabor se fazem tão quase verdadeiras para mim.

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"O AMOR DEIXA MUITO A DESEJAR"

"O amor já teve um toque sagrado, a magia de uma inutilidade deliciosa, já foi um desafio ao dia-a-dia que nos tirava da vida comum. Não existe mais o amor definhando de solidão, nem Romeus nem Julietas, nem pactos de morte, não existe mais um amor nos levando para uma galáxia remota, uma eternidade semi-religiosa. O amor tinha uma fome de compaixão pelo outro, de proteção à pessoa amada. Isso está acabando. O ritmo do tempo atual acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável. Hoje, temos controle, sabemos por que "amamos", temos medo de nos perder no amor e fracassar no mercado. O amor pode atrapalhar a produção.

Por isso, os filmes de Almodóvar são tão oportunos. Temos de fazer filmes assim, cheios de amor, sem efeitos, sem denúncias. O amor perdeu a gratuidade, as pessoas "amam" por desejo de ter um amor que não sentem mais. O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar, não tem mais a utilidade do sacrifício pelo "outro". O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. Não temos mais músicas românticas, nem o lento perde-se dentro de "olhos de ressaca", nem nas "pernas de fulana", nem temos as bocas beijadas por amantes tutti tremanti, nem o formicida com guaraná. Não se diz mais: "Deus sabe como amei...", mas "Deus sabe quantas(os) amei...".

A publicidade devastou o amor, falando na "gasolina que eu amo", no sabonete que faz amar, na cerveja que seduz. Há uma obscenidade flutuando no ar o tempo todo, uma propaganda difusa do sexo impossível de cumprir. Como comer todas as moças da lingerrie e do xampu, como atingir um orgasmo pleno e definitivo? A sexualidade é finita, não há mais o que inventar. Já o amor, não... O amor vive da incompletude e esse vazio justifica a poesia da entrega. Ser impossível é sua grande beleza. Claro que o amor é também feito de egoísmos, de narcisismos mas, ainda assim, ele busca uma grandeza . Mesmo no crime de amor há um terrível sonho de plenitude. Amar exige coragem e hoje somos todos covardes.

O amor passa a buscar não mais a entrega, mas um domínio. O amor vira um objeto de consumo, fast love, com obsolescência programada para durar pouco. O amor deixa muito a desejar. Em geral, o amor existe hoje como uma espécie de adoçante para justificar, legitimar uma tesão ou uma conquista.

Estamos com fome de amor cortês, num mundo em que tudo perdeu a aura. Por isso, o filme de Almodóvar, cheio de compaixão sussurrada, parece um segredo religioso, uma saudade inexplicável de alguma coisa que existe "aquém", antes da vida.

Nos anos 60, liberdade sexual foi uma questão política. Hoje, podemos tudo, podemos casar até com jacarés ou macacas, sem escândalo, desde que não prejudique a produção. Mas o que invisivelmente esta virando uma nova necessidade polítca é o amor e seus subprodutos. (...) Estamos virando coisas. Precisamos aprender a amar de novo as pedras, as árvores, as nuvens, até chegarmos a nós mesmos... E acho que isso vai surgir na América, como foi nos anos 60. A luta pelos direitos civis será agora a luta pela beleza da inutilidade."

Arnaldo Jabor - "Amor é prosa, sexo é poesia"




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